Samu registra 297 faltas de motoristas em 2026 e tem ambulâncias paradas em Porto Alegre
12/10/2026
(Foto: Reprodução) Samu registra 297 faltas de motoristas em 2026 e tem ambulâncias paradas em Porto Alegre
Documentos e planilhas apontam que o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Porto Alegre registrou 297 faltas de motoristas neste ano, deixando ambulâncias paradas por ausência de condutores. No mesmo período, também foram contabilizados 106 atrasos de motoristas.
Os problemas, no entanto, já apareciam no ano passado. Em fevereiro, motoristas da empresa Gerir Hospitalar faltaram ao serviço e não foram substituídos dentro do prazo de duas horas estabelecido em contrato. Ao longo daquele mês, nove ambulâncias ficaram paradas por falta de condutor. Reportagem do Fantástico deste domingo (11) detalhou a situação; veja a reportagem acima.
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A situação foi informada à empresa e à coordenação do Samu pelo fiscal responsável pelo contrato. Em dezembro, a Prefeitura de Porto Alegre aplicou uma multa de R$ 34.718,34 por descumprimento contratual.
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) afirma que "acompanha os apontamentos relacionados ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Porto Alegre e apura as situações relatadas". Leia a nota completa abaixo.
Atestado foi emitido após aplicação de multa
Apesar da sanção, no mês seguinte uma funcionária do Samu assinou um atestado de capacidade técnica em favor da Gerir Hospitalar.
No documento, consta que os serviços teriam sido prestados com "bom desempenho operacional" e que a empresa havia cumprido fielmente suas obrigações. O texto também afirma que, até aquele momento, não havia fatos que desabonassem a empresa técnica ou comercialmente.
Um ex-funcionário do Samu ouvido pela reportagem questionou a emissão do documento:
"Esse documento é imoral. E não poderia ter tido um documento emitido em favor da empresa por um servidor do SAMU assinado, dizendo que a empresa tem capacidade técnica. Isso não poderia acontecer", diz.
Em março deste ano, o secretário municipal da Saúde, Fernando Ritter, validou a sanção aplicada contra a empresa em dezembro. Questionado posteriormente sobre o atestado, afirmou que o documento seria reavaliado.
"Diante dos fatos, obviamente, que a gente vai reavaliar para a gente não permitir que essa instituição possa participar da licitação. O contrato segue e a gente vai ter reuniões com eles, obviamente, fazer as sanções até entrar a nova instituição que vai assumir esse papel de colocar os condutores dentro do SAMU", afirma.
Pacientes esperam por ambulâncias
Ambulância em Porto Alegre
Reprodução/ RBS TV
Os reflexos da falta de veículos disponíveis foram acompanhados pela reportagem.
Um idoso de 71 anos, que sofre de uma doença degenerativa do sistema nervoso central, aguardava atendimento com fortes dores na barriga. Segundo a mulher que estava com ele, não era possível transportá-lo de carro.
Em outro caso, uma ambulância levou uma hora e meia para chegar a uma ocorrência envolvendo um acidente de trânsito.
A reportagem também foi informada, por um funcionário do Samu, sobre chamados que estavam na fila. Em uma das ocorrências, um motociclista estava com a perna presa em um carro. No local, a reportagem confirmou que o Samu ainda não havia chegado.
Um socorrista, que pediu para não ser identificado por temer represálias, afirmou que a indisponibilidade de uma ambulância pode afetar uma grande área de atendimento.
"Fica em torno de 90 a 100 mil habitantes desassistidos durante esse período", comenta.
Questionado sobre casos de pacientes que aguardavam mais de cinco horas pelo serviço, o secretário municipal da Saúde afirmou que desconhecia a situação.
Contrato em Glorinha foi suspenso
O mesmo atestado de capacidade técnica emitido pelo Samu foi utilizado pela Gerir Hospitalar para conseguir outro contrato, desta vez com a Prefeitura de Glorinha.
Segundo o prefeito Leonardo Carvalho, a contratação de enfermeiro e técnico de enfermagem foi interrompida depois que o município tomou conhecimento das informações relacionadas ao documento.
"Após as informações que o atestado de capacidade técnica eram inverídicas e isso prejudicava o processo licitatório, a gente suspendeu cautelarmente o contrato por prudência", revela Carvalho.
CPI vai investigar Samu em Porto Alegre
Será aberta uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a atuação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Foi atingido o número de assinaturas necessárias para determinar sua abertura na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. O protocolo teve assinatura de 12 parlamentares desde o início da noite deste domingo (11).
O pedido foi feito pelo vereador Roberto Robaina (PSOL), no sábado (10), e contou com a assinatura dos cinco parlamentares do seu partido, cinco do PT e dois do PCdoB — siglas que formam o bloco de oposição ao governo Sebastião Melo (MDB) na capital gaúcha.
Segundo o requerimento, a CPI será "destinada a apurar fatos determinados relacionados à disponibilidade de equipes e condutores, à regulação e ao despacho de recursos em ocorrências de emergência, à aplicação e efetividade dos recursos públicos destinados ao serviço, à disponibilidade e utilização de equipamentos essenciais ao atendimento de urgência e emergência e à gestão da estrutura operacional do Samu".
O que diz a empresa
A reportagem solicitou ao diretor da Gerir Hospitalar um posicionamento sobre o atestado de capacidade técnica, mas não houve retorno.
Sobre as faltas de motoristas, a empresa informou que criou o "prêmio assiduidade", uma gratificação em dinheiro destinada a incentivar o cumprimento das escalas.
A Gerir Hospitalar também afirmou que os condutores precisam ter qualificações específicas e que isso reduz significativamente a quantidade de profissionais disponíveis para substituições imediatas.
O que diz a Secretaria Municipal de Saúde
"A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) acompanha os apontamentos relacionados ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Porto Alegre e apura as situações relatadas.
Em relação aos tempos de atendimento, a média geral é de 26 minutos. Nos casos graves, o tempo médio é de 15 minutos, enquanto nas ocorrências envolvendo pacientes em parada cardíaca é de 12 minutos. A prioridade de cada chamado é definida conforme a gravidade e os protocolos assistenciais. Nos casos relacionados à saúde mental, é necessária a participação de profissionais da segurança pública para garantir a segurança do transporte, portanto, o Samu depende também de efetivo policial disponível para auxiliar nos atendimentos.
Entre julho de 2025 e setembro de 2026, foram registradas 1.507 horas de ausência de profissionais, diante de aproximadamente 245 mil horas de plantão contratadas, o equivalente a cerca de 0,6% da carga horária prevista. A SMS esclarece que a ausência de um profissional na escala não significa, necessariamente, que tenha havido interrupção do atendimento. As horas não cumpridas são glosadas, ou seja, descontadas dos valores pagos à empresa terceirizada. Dessa forma, o valor global do contrato não corresponde ao pagamento integral de horas eventualmente não executadas.
A SMS instaurou processo administrativo sancionatório contra a empresa responsável pelo serviço, que poderá resultar na aplicação de penalidades, incluindo o impedimento de participar de licitações, conforme o enquadramento legal e a conclusão do processo."
Boné do SAMU
Reprodução/ RBS TV
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